Lembranças de emoções Antigas

 

    Capítulo 7: Lembranças de emoções Antigas

     

    Hoje já se sabe da existência de múltiplos sistemas de memória no  cérebro, cada um deles encarregado de diferentes funções de memória. O sistema  cerebral que nos permite aprender a lançar uma bola de beisebol é diferente daquele que  faz com que eu lembre como se atira uma bola de beisebol que por sua vez é diferente do  sistema que me deixou tenso e ansioso quando eu lembrei que fui atingido por uma bola na  última vez que joguei. Embora, todos representam memória de longo prazo (duram mais que  alguns segundos), são mediados por diferentes redes neuronais.

    Nesse capítulo o autor mostra dois sistemas cerebrais de aprendizado  utilizados pelo cérebro para compor memórias de experiências emocionais.

    A experiência de Claparede

    No princípio do século, um médico francês denominado  Edourd Claparede examinou um paciente que era incapaz de guardar novas memórias. Toda vez  que o paciente entrava na sala Claparede tinha que se apresentar. Esse problema era tão  grave que se o cientista saísse da sala e depois voltasse, a paciente já não se  lembrava mais dele.

    Um dia ele tentou uma coisa diferente. Como costumava fazer sempre  antes de se apresentar, estendeu a mão para cumprimentar a paciente. Só que desta vez  ele colocou um alfinete na mão, a qual a paciente reagiu.

    No próximo dia em que a paciente voltou a sala sem reconhecer  Claparede ela cumprimentou-o mas não quis estender a mão. Ao ser questionada do porquê,  a paciente não soube responder.

    Claparede passou a significar perigo. Embora a paciente não tivesse  lembrança consciente da situação, subconscientemente havia aprendido que cumprimentar  Claparede poderia causar dor e seu cérebro guardou esta informação para evitar a  repetição deste incômodo.

    Hoje, os cientistas acreditam que essa atitude se deve ao funcionamento  de dois sistemas de memórias diferentes. Um deles encarregado da formação de  lembranças de experiências e da disponibilização desta para lembrança posterior e  outro funcionando externamente a consciência, responsável pelo controle do comportamento  sem a percepção explícita do aprendizado anterior.

    A recordação consciente é o tipo de memória a que nos referimos  quando usamos o termos memória no dia-a-dia: lembrar é ter consciência de alguma  experiência passada. Cientistas referem-se às recordações conscientes como memórias  explícitas ou assertivas. Lembranças produzidas assim podem ser trazidas à consciência  e descritas verbalmente. A paciente de Claparede tinha problemas com esse tipo de  memória.

    Porém, a capacidade de proteger-se de uma situação de perigo,  recusando-se a cumprimentá-lo, reflete um tipo de sistema de memória diferente. Esse  tipo de memória forma lembranças implícitas sobre situações perigosas ou  ameaçadoras. As memórias desse tipo são produzidas através de condicionamento do medo.

    Pesquisas posteriores demonstraram que existe um único sistema  cerebral responsável pela memória assertiva, explícita, o sistema de memória do lobo  temporal. Porém, existem diversos sistemas de memórias implícitos. Assim, o sistema  cerebral responsável pela aprendizado de aptidões é diferente do sistema de  condicionamento clássico. Além disso, diferentes formas de condicionamento clássico  são também mediadas por sistemas neurais diferentes. Por exemplo, o condicionamento do  pestanejar é efetuado pelo tronco cerebral e condicionamento do medo pela amígdala.  Assim, o cérebro possui diferentes tipos de memória, cada qual encarregado de diferentes  tipos de aprendizado e funções de memória.

    O caso de Henry Mnemônico (H.M.)

    H.M. apresentava um grave caso de epilepsia que não  conseguiu ser controlado com a medicação da época. Devido a isso, ele foi submetido a  uma cirurgia inédita em que foi removido os lobos temporais de ambos os lados do  cérebro. H.M. tinha 27 anos na época da cirurgia.

    Após a cirurgia, a epilepsia conseguiu ser controlada, porém o  paciente perdeu a capacidade de formar novas lembranças (memória consciente). Esse  paciente não é capaz de guardar lembrança nenhuma. Não reconhece as pessoas que vê  constantemente.

    Porém, não houve perda intelectual nenhuma. Após a cirurgia H.M.  continuou apresentando um Q.I. alto.

    Memórias de Curto e Longo Prazo

    Hoje em dia os cientistas já sabem da existência de  memórias de curto prazo (cuja duração é de apenas alguns segundos) e de memórias de  longo prazo (que podem estender-se por toda a vida). Você tem consciência nesse instante  daquilo que está em sua memória de curto prazo (mas, especificamente na memória de  trabalho, um tipo especial de memória de longo prazo, que é explicado no cap. 9), e  aquilo que vai para a memória de curto prazo pode ir também para a memória de longo  prazo.

    Essas idéias foram propostas por Willian James, mas só tiveram  aceitação com as pesquisas realizadas com H.M. Foi observado que H.M. não conseguia  guardar memórias de longo prazo, mas era capaz de guardar memórias de curto prazo.  Assim, observou-se que a memória de longo prazo localiza-se no lobo temporal, enquanto  que a de curto prazo em outro sistema cerebral.

    Além disso, H.M. mostrou que o sistema cerebral encarregado de guardar  novas memórias de longo prazo é diferente daquele que armazena memórias de longo prazo  antigas. H.M. consegui lembrar de fatos da sua infância e do inicio da sua vida adulta  (até alguns pouco antes da cirurgia), mas era incapaz de acrescentar novo aprendizado no  banco de dados de memória de longo prazo.

    Desta maneira, o lombo temporal se faz necessário para a formação de  novas memórias de longo prazo, mas com o passar do tempo, elas se tornam independentes  deste sistema cerebral.

    O Hipocampo

    Observações feitas posteriormente, em pacientes em que  era retirado parte do hipocampo em cirurgias, mostraram que a extensão do distúrbio na  memória era equivalente a quantidade removida do hipocampo. Com base nisso, o hipocampo  surgiu como o principal candidato para região cerebral responsável por armazenar novas  memórias.

    Após algumas outras pesquisas, os cientistas chegaram a algumas  conclusões unânimes sobre o funcionamento do lobo temporal. As áreas de processamento  sensoriais do córtex recebem informações sobre os eventos externos e criam  representações perceptuais dos estímulos. Então essas representações são lançadas  as regiões corticais adjacentes que, por sua vez, enviam as representações processadas  ao hipocampo. Este comunica-se novamente com as regiões adjacentes, que estabelecem  contato com o neocórtex. A manutenção da memória a longo prazo (alguns anos) exige que  o sistema de defesa do lombo temporal esteja intacto, seja porque os componentes desse  sistema armazena traços de memória ou porque os traços são mantidos pelas interações  entre o sistema do lobo temporal e o neocórtex. Gradativamente, com o passar dos anos o  hipocampo vai cedendo seu controle sobre a memória ao neocórtex, onde a memória parece  manter-se enquanto memória, o que pode significar toda uma vida.

    A memória explícita e as memórias implícitas

    Hoje em dia, já é consenso pensar no cérebro como uma  variedade de diferentes tipos de memória. A memória explícita, consciente é mediada  pelo hipocampo e relaciona-se com as áreas corticais, enquanto que diversas formas de  memória implícitas são mediadas por diferentes sistemas. Um exemplo de sistema  emocional implícito é um sistema de memória emocional que envolve as amígdalas e  regiões correlatas. Em situações traumáticas esses dois tipos de memória funcionam em  conjunto. Graças ao sistema do hipocampo, você vai lembrar com quem estava e onde  estava, bem como o caráter terrível da situação. Por meio da amígdala, os estímulos  vão produzir tensão muscular, alterações na pressão sangüínea e nos batimentos  cardíacos, dentre outras reações corporais. Como esses sistemas são ativados pelos  mesmos estímulos e funcionam ao mesmo tempo, os dois tipos de memória parecem fazer  parte de uma única função de memória unificada.

    Por exemplo, faça de conta que você sofreu um acidente de carro que  dispara um forte som de buzina. Você sente muita dor, então o trauma se instala. Toda  vez, que você ouve a buzina você tem reações corporais, tais como suor, aumento dos  batimentos cardíacos, etc, e também lembranças de fatos na hora do acidente.

    Porém, há casos em que os estímulos ativam a memória implícita sem  ativar a memória explícita. Por exemplo, digamos que muito tempo depois do acidente  você já se esqueceu dos detalhes. Assim, o som da buzina não ativará a memória  explicita e você não recordará conscientemente do acidente. Porém, a memória  emocional será ativado e você terá reações corporais que nem saberá o porquê.

    Memória de lembranças da Infância

    Jacob e Nadel propuseram que não temos lembranças  explícitas da primeira infância porque o sistema que as produz não está pronto para  realizar o seu trabalho, ou seja, o hipocampo precisa de um tempo um pouco maior do que as  outras regiões do cérebro para sua maturação.

    Jacobs e Nadel sugeriram que a amígdala alcança a maturação antes  do hipocampo, o que pode levar-nos a compreender o porque da existência de alguns traumas  inconscientes advindos da infância.

    Como as memórias são armazenadas?

    Muitos psicólogos acreditam que as memórias são  armazenadas em redes associativas, estruturas cognitivas nas quais os diversos componentes  de memória são representados separadamente e encadeados. Para que a memória surja na  consciência, a rede associativa precisa alcançar um certo nível de ativação, que  ocorre em função do número de componentes da memória que são ativados e o peso de  cada componente ativado. Aspectos fundamentais da memória terão um peso maior do que as  coisas menos importantes. Quanto mais pistas estiverem presentes durante o aprendizado e  também durante a recordação, e quanto maior o peso dos componentes da memória ativados  pelas pistas durante a rememoração, mais provável será a existência de uma  lembrança.

    Além disso, algumas recordações emocionais são guardadas como  pistas na lembrança explícita. A presença de pistas relevantes é capaz de ativar a  rede associativa. São consideradas pistas relevantes aquelas provenientes do cérebro e  do corpo e que sinalizam o mesmo estado emocional do momento do aprendizado. Essas pistas  irão ocorrer porque os estímulos que atuam no sistema explícito também irão agir no  sistema implícito, ocasionado o retorno de estado de espírito em que você se encontrava  no momento em que o sistema de memória explícita realizou seu aprendizado. A  combinação do seu estado de espírito atual e o da recordação facilitam a ativação  da memória explícita. A co-ativação da memória implícita pode, portanto, auxiliar o  sistema explícito tanto durante a recordação como no aprendizado.

    Como acontece as funções de memória do ponto de  vista dos neurônios e sinapses

    Os cientistas acreditam que o aprendizado fortalece o as  conexões sinápticas entre os neurônios. As sinapses são espaços minúsculos entre as  extremidades dos neurônios, pelos quais estes trocam informações.

    As sinapses envolvem o contato de um terminal do axônio de determinado  neurônio com o dendrito de outro. Impulsos elétricos fluem do corpo celular do neurônio  emissor, atravessando seu axônio até o terminal. O terminal, por sua vez, libera uma  substância química, chamada de neurotransmissor, que chega ao espaço sináptico e  acopla-se às moléculas do receptor (cuja finalidade é receber essa substância  específica do transmissor), localizadas no dendrito do neurônio receptor. Se uma  quantidade suficiente do transmissor unir-se aos receptores no neurônio receptor,  impulsos elétricos serão disparados ao longo de seu axônio, o que irá ativar a  estimulação do neurônio seguinte e, assim por diante.

    Em 1949, Donald Hebb, propôs uma forma de aprendizado no nível das  sinapses. Imaginem dois neurônios, X e Y, anatomicamente interligados mas com uma  relação sináptica insuficiente. Isto é, quando X é disparado, Y teria o potencial  para disparar, mas não é o que acontece. Contudo, se em algum momento Y for disparado  quando os impulsos de X alcançam Y, algo acontecerá entre essas duas células - será  criado um elo funcional. Como resultado, na próxima vez que X disparar, a probabilidade  de Y disparar será maior.

    Potenciação de Longo Prazo (PLP)

    Pesquisas posteriores demonstraram que estimulação em  velocidade altíssima (cem batidas de estímulo por segundo) entre regiões de transição  e o hipocampo, aumentaram a potência da conexão sináptica. Assim, a amplitude da  reação sináptica produzida por um único estímulo do teste foi maior depois e não  antes. E as mudanças se mostraram duradouras. A produção de transformações nas  conexões sinápticas como resultado de estimulações rápidas costuma ser chamado  "potenciação de longo prazo" (PLP).

    O fato de um breve episódio na vida de um neurônio pode produzir  mudanças duradouras no comportamento desse neurônio indicou imediatamente que a PLP  poderia ser o elemento constituinte da memória.

    Além disso, para que a PLP aconteça deve ser enviado um certo número  de informações, de modo que sinapses diferentes sejam ativadas. Se o número for pequeno  a PLP não ocorre. Devido a isso, muitas vezes acontece cooperação entre neurônios. Ou  seja, dois neurônios X e Y que são emissores para um neurônio Z, enviam informações  ao mesmo tempo para Z, para que Z receba informações suficientes e possa se estabelecer  uma relação sináptica entre essas células.

    Os neurotransmissores liberados pelos terminais do axônio produzem  excitação ou inibição quando se unem a seus receptores na outra extremidade das  sinapses. Os transmissores excitatórios tornam mais provável que a célula do outro lado  da sinapse (a célula pós-sináptica) dispare, e os transmissores inibitórios tornam  menos provável que ela dispare. O glutamato é o principal transmissor excitatório no  cérebro. A transmissão do glutamato acontece da seguinte maneira: conjuntos de glutamato  liberados pelo terminal atravessam a sinapse e se reúnem a classe AMPA dos receptores de  glutamato. Tão logo isto acontece, a célula pós-sináptica dispara impulsos ao longo de  seu axônio. Normalmente, um outro grupo de receptores, o NMDA, é interceptado e o  glutamato que chega até ele não tem nenhum efeito. Porém, quando a célula  pós-sináptica é disparada, os receptores NMDA ficam disponíveis para vinculação com  o glutamato.

    O fato de que os receptores NMDA só estão disponíveis quando a  célula que os abriga acaba de ser disparada faz com que o receptor NMDA constitua um meio  de formação de associações entre os estímulos. Na verdade, isso comprova a teoria de  Hebbian (neurônios que disparam juntos encadeiam-se juntos) no cérebro.

    Suponhamos que os impulsos provenientes de uma via de informação  ocasionem a liberação de glutamato, que se reúne ao neurônio pós-sináptico e produz  o disparar da célula pós-sináptica. Se os impulsos de uma via de informação diferente  promoverem a liberação de glutamato nas sinapses da mesma célula e esses impulsos  chegarem quando a célula for disparada (pela a outra via), o glutamato irá vincular-se  com os receptores NMDA, cuja abertura é momentânea, nesta célula (bem como aos  receptores AMPA). O resultado concreto será uma associação ou conexão entre as duas  informações.

    Assim, sabe-se que a administração de drogas bloqueadoras do vínculo  entre glutamato e receptores NMDA impeça a ocorrência de PLP no hipocampo e, portanto,  influencie o aprendizado. Porém, a maneira exata que os receptores NMDA contribuem com a  PLP e a memória constitui tema de muita pesquisa atualmente.

    Alguns pesquisadores tentam vincular a PLP e a memória de maneira mais  direta. Alguns mostraram que a indução da PLP numa via afeta os processos de aprendizado  que dependem daquela via.

    Além disso, a PLP tem sido identificada em vias associadas ao  condicionamento do medo, e que o bloqueio dos receptores NMDA na amígdala impede o  condicionamento do medo.

    Embora, muitas pesquisas tentam vincular o aprendizado ao PLP, ainda  não foi provado que a PLP constitui a origem do aprendizado.

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