Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação
Seminários – Aprendizagem humana
Prof. Dr. Fernando Becker


 
 




Em busca de uma

Teoria da Aprendizagem Humana








Luis de França Ferreira


Sumário

1. Introdução
2. É possivel uma teoria da aprendizagem humana?
3. Conhecimento e aprendizagem
4. A cognição e o sistema nervoso
5. Conclusões
6. Bibliografia



 


1 Introdução

A procura de uma explicação satisfatória de como os humanos aprendem, tem sido uma questão importante há bastante tempo. O estudo científico sobre a aprendizagem era realizado essencialmente por psicólogos. Algumas definições de aprendizagem evitavam, no entanto, o problema de especular sobre a aprendizagem e sua relação com as mudanças que ocorrem no sistema nervoso. Entretanto, atualmente não basta apenas saber que a aprendizagem se dá, deve-se buscar saber também "como" ela se dá. Com o avanço da tecnologia, muitos fatos novos tem sido decobertos relacionados a esta questão, a partir do estudo do cérebro. Com certeza o assunto é altamente interdisciplinar: psicólogos e neurologistas, ao unirem esforços trarão, cada vez mais, luzes sobre este assunto.

Pesquisadores como Humberto Maturana e Jean Piaget, entre outros, ao pesquisarem sobre a gênese do conhecimento científico, trouxeram, sem dúvida nenhuma, as mais importantes contribuições para o esclarecimento das questões envolvidas com a aprendizagem humana. Por outro lado, com o avanço das pesquisas em Neurociência, pesquisadores como Damásio, Del Nero, Eccles, entre outros, ao pesquisarem sobre o cerébro também trouxeram mais contribuições. A obra destes autores, tem mostrado uma forte convergência entre o que se encontra nos trabalhos realizados por Piaget e Maturana e o que se tem descoberto sobre o cérebro humano.
 

2 É possivel uma teoria da aprendizagem humana?

A construção de uma teoria de aprendizagem totalmente satisfatória e aceita por todos, permanece até os dias de hoje, como uma tarefa incompleta. Uma das dificuldades encontra-se no significado do termo aprendizagem. Seu significado depende das diversas teorias que existem. Hilgard, nos oferece uma definição, que segundo o próprio autor, por conter termos não definidos, "não é formalmente satisfatória":

Aprendizagem é o processo pelo qual uma atividade tem origem ou é modificada pela reação a uma situação encontrada, desde que as características da mudança de atividade não possam ser explicadas por tendências inatas de respostas, maturação ou estados temporários do organismo (por exemplo, fadiga, drogas, etc.). [HILGARD73, pag 3] Becker, ao "organizar uma teoria da aprendizagem", também nos oferece uma, que é a seguinte: Aprendizado, Aprendizagem é aquisição de uma técnica qualquer, simbólica, emotiva ou de comportamento: isto é, uma mudança nas respostas de um organismo ao ambiente que melhore tais respostas em vista da conservação e do desenvolvimento do próprio organismo. [BECKER93, pag 26]
 
 
Outra dificuldade reside nos métodos usados pelos pesquisadores para construir as teorias da aprendizagem. Entre estes métodos encontra-se a observação que é, de longe, o mais utilizado. Ao estudo dos sistemas independentes da nossa atividade cognoscitiva de observação deu-se o nome de cibernética de primeira ordem ou cibernética dos sistemas observados. Neles o observador se supõe à margem do que é observado. Ao estudo dos sistemas nos quais o próprio observador, através da sua atividade descritiva, faz parte dos mesmos, chamou-se de cibernética de segunda ordem. Ora, nos sistemas de segunda ordem, nos quais se insere os estudos da aprendizagem humana, existe um problema enorme relacionado à uma "circularidade cogniscitiva", bem observado por Rolf Behncke C., que pergunta: "Como operam os sistemas observadores, de maneira tal que podem observar como operam eles mesmos em seu observar, se toda a variação perceptiva neles (seu próprio conhecer) é função das variações perceptivas que eles mesmos experimentam?" [MATURANA95, pag 35]. Esta dificuldade é de difícil superação. Pode-se, entretanto, tentar superá-la. Como? a)descrevendo o fenômeno da aprendizagem de forma aceitável para a comunidade de observadores, b)propondo um sistema conceitual capaz de gerar o fenômeno a ser explicado de maneira aceitável para a comunidade de observadores, c)deduzindo, a partir do sistema conceitual proposto, outros fenômenos não considerados explicitamente naquela proposição, bem como a descrição das suas condições de observação na comunidade de observadores.
 

3 Conhecimento e aprendizagem

Aprendizagem não se confunde necessariamente com desenvolvimento intelectual. Piaget distingue, no processo da formação de conhecimentos, sete componentes, dos quais somente um é considerado aprendizagem sensu stricto. Assim,

"no sentido restrito (s.str.) só falaríamos de aprendizagem na medida em que um resultado (conhecimento ou atuação) é adquirido em função da experiência, essa experiência podendo aliás ser do tipo físico ou do tipo lógico-matemático ou dos dois..." [PIAGET74, pag 52]. Não se pode dizer que exista uma aprendizagem que inicie na tabula rasa. Uma aprendizagem sensu strictu é sempre precedida por uma equilibração entre a assimilação e a acomodação. E mais, não basta a interação entre sujeito e objeto para que aquele construa conhecimento: uma aquisição a partir de uma experiência só é possível se existirem condições para isto. Podemos dizer que aprender é criar esquemas de assimilação, ou seja, aprender é criar instâncias internas que nos possibilite assimilar algo diferenciadamente das assimilações anteriores, estando aí uma condição necessária, para seja possível esta assimilação. Fazem parte da aprendizagem, os quadros assimiladores elaborados pela abstração reflexionante.
 

4 A cognição e o sistema nervoso

Estes esquemas de assimilação, bem como os esquemas de esquemas (que formam as estruturas do conhecimento) são constituídos pelas estruturas neuronais. Assim, para que possamos aprender, nosso cérebro tem que ser capaz de criar e "guardar" estas instâncias, que são nada mais que novas reorganizações daquelas estruturas. Esta nova instância da estrutura neuronal, ao possibilitar a atividade assimiladora do sujeito, gera e ativa o processo de assimilação e acomodação, possibilitando assim, a assimilação do novo conhecimento. Desta forma, concordamos com Maturana, quando nos diz que:

a aprendizagem é o caminho da mudança estrutural que segue o organismo (incluindo seu sistema nervoso) em congruência com as mudanças estruturais do meio como resultado da recíproca seleção estrutural que se produz entre ele e este, durante a recorrência de suas interações, com conservação de suas respectivas identidades [MATURANA98] pag 32 O sistema nervoso está em contínua mudança estrutural, ou seja, ele é dotado de plasticidade. Esta plasticidade explica-se pelo fato dos neurônios não estarem interligados de forma fixa. Os pontos de interação (as sinapses) são delicados equilíbrios dinâmicos. Entretanto, as mudanças estruturais que ocorrem, não são radicais. Elas ocorrem segundo uma arquitetura própria da espécie. E toda esta movimentação indica que as sinapses modificáveis e relacionadas com a aprendizagem também são responsáveis pela memória. [POPPER95, pag 469].

As novas instâncias neuronais ou os novos esquemas de assimilação são construidos a partir da intensa interação do corpo e cérebro do sujeito da aprendizagem com o ambiente que o rodeia. Os aparelhos sensoriais do sujeito e o movimento do seu organismo são os mediadores destas relações. Suas ações sensório-motoras se dão através destes mediadores. As ações interiorizadas, por sua vez, se dão na mente do sujeito, através do processo chamado pensamento, processo este que manipula imagens formadas por representações neurais. Estas representações neurais são modificações biológicas criadas por aprendizagem num circuito de neurônios.

Sobre as imagens convém salientar que são elas, provavelmente, o principal conteúdo dos nossos pensamentos, independente da modalidade sensorial em que são geradas ( auditivas, visuais, sensitivas, etc...).
 

5 Conclusões

Aprendizagem e desenvolvimento intelectual estão estreitamente relacionados com o desenvolvimento neural, e esta relação resulta em um processo de construção que acontece a partir de uma interação intensiva entre o corpo e cérebro do sujeito e o ambiente que o cerca. A compatibilidade entre o operar do organismo e o meio será sempre mantida pelo acoplamento estrutural (uma ou mais unidades estão acopladas quando a conduta de cada uma é função da conduta as demais). A aprendizagem é uma expressão deste acoplamento. Esta forma de construção do conhecimento derruba as teorias de aprendizagem empiristas, que se apoiam na tese de que as estruturas do conhecimento são impostas pelos objetos (meio físico ou social).

Hoje é plenamente aceito pela comunidade científica que o sistema nervoso participa dos fenômenos cognitivos, e a rede neural é parte integrante deste sistema. É também aceito que os processos relacionados com a aprendizagem humana são construtivos: a estrutura do cérebro não é totalmente especificada pelo genoma humano (esta especifidade não está totalmente presente no nascimento, ou seja, esta especifidade não é inata). É impossível para o genoma humano fazer toda esta especifidade: transportamos em torno de 105 (100 mil) genes enquanto as sinapses são da ordem 1015 (10 trilhões). Isto derruba outras teorias de aprendizagem, as aprioristas, que se baseiam na tese de que as estruturas do conhecimento são inatas.

Assim, parece-nos que uma verdadeira teoria de aprendizagem deve basear-se na hipótese construtivista: as estruturas do conhecimento são construídas, a partir da ação do sujeito sobre o objeto, evoluindo no mesmo compasso do desenvolvimento neural. Entretanto, para a aprendizagem humana, não é possível chegar-se a uma teoria aceitável, somente a partir da perspectiva do sistema nervoso. Maturana, revisitando Piaget, e de certa forma estendendo-o, ao abordar a problemática do conhecer o conhecer, o fez não a partir deste ponto de vista, mas da perspectiva do operar biológico completo do ser vivo. Da mesma forma podemos também fazê-lo para a aprendizagem humana. Sob esta perspectiva será possível, certamente, a construção de uma teoria da aprendizagem humana.
 

6 Bibliografia

[BECKER93] Becker, F., Da Ação à Operação: o caminho da aprendizagem, Palmarinca/ E&R/ EST, Porto Alegre, 1993.
[BECKER94] Becker, F., Modelos pedagógicos e modelos epistemológicos. Educação e Realidade, Porto Alegre, 19(1):89-96, 1994
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