O uso do hipertexto em atividades cooperativas na construção do conhecimento

Jairo Ferreira

1 Introdução

A idéia de que o hipertexto se constitui em ambiente que reúne as condições necessárias e suficientes à estruturação do conhecimento (isto é, o hipertexto como uma estrutura estruturante da cognição) é relativizada por vários autores. Neste sentido, são interessantes as avaliações feitas nos artigos de Reader & Nick e Terry Mayes. Este autor em especial se refere ao fato de que a experiência de ambientes pedagógicos com hipertexto tem sido mais importante para os que elaboram e realizam o projeto do que para os alunos. A questão, entretanto, nos parece mais complexa. Focalizando nosso interesse sobre o processo de criação/invenção de um ambiente que utilize ferramentas para a produção de hipertexto, trabalhando os conceitos de Piaget e adotando como referência empírica algumas experiências de geração de ambientes hipertextuais (mais especificamente a nossa experiência coletiva e a implementação do projeto desta disciplina de Laboratório de Teleducação), pretendemos aqui mapear os níveis de interações requisitados aos sujeitos nestes casos.As considerações teóricas que apresentamos, resumidamente, partem do pressuposto de que o leitor tenha se familiarizado com os conceitos de interação, assimilação e acomodação apresentados no texto Ambientes de Aprendizagem Construtivista (Márcia, Fátima e Júlio).

2 Função semiótica e cognição

O processo de significação (isto é, a produção de sentido das coisas e das pessoas) da realidade é contemporâneo da atuação e desenvolvimento dos esquemas sensórios-motores de assimilação, na medida em que estes conferem significados (conteúdos) à ação em curso (Piaget, 1982, p. 47). Os significantes, no caso, são constituídos das percepções (aspecto figurativo do conhecimento do real). Piaget inclui, no nível das percepções, os indícios (a brancura do leite, a porta que se abre para a chegada da mãe, uma parte do objeto, um sinal ), os quais se constituem em parte do objeto em sua totalidade. A descoberta das constâncias (da forma, de grandeza, de objeto permanente) e dos efeitos de campo inicia, assim, antes da função semiótica, o que significa que a cognição é anterior a conjunto das formas simbólicas (e por isso pode-se falar em inteligência animal mesmo na ausência completa de simbolismo).

Com a função semiótica, a significação se bifurca entre significante e significados diferenciados, possibilitando que as interações, mesmo na ausência dos objetos e sujeitos (considerando aí seus movimentos, ações, relações, etc.), possam ser evocadas representativamente. O desenvolvimento segue níveis: a imitação diferida (imitar na ausência do objeto ou do sujeito), o jogo simbólico (ficções a partir de gesto imitativo porém acompanhada de objetos simbólicos), o desenho, a imagem mental e a evocação verbal. Estes instrumentos semióticos já permitem níveis pré-operatórios de conceitualização das interações do sujeito com seu ambiente, sustentando as mudanças do indivíduo no sentido da “elaboração dos instrumentos de conhecimento”. Neste sentido, para Piaget (1990, p. 19), “os progressos da inteligência pré-verbal em seu conjunto” e “a interiorização da imitação em representações” são fenômenos inaugurais da constituição do sujeito enquanto forma especificamente humana de inteligência (ou seja, de atividade cognitiva), na medida em que os processos de assimilação da realidade são adaptados ao ambiente com o qual o indivíduo interage, num mútuo condicionamento e crescente independência recíproca, de equilíbrios e desequilíbrios constantes.

O papel importante que a linguagem verbal cumprirá nas formas de representação é indissociável da atividade de significação propiciada pelo conjunto da função semiótica. Neste sentido, Piaget (1982, p. 77) se refere a investigações sobre o desenvolvimento cognitivo entre surdos-mudos que utilizam a linguagem de sinais, as quais demonstram a capacidade de elaboração de instrumentos de conhecimento - conceitualização da ação -, mesmo que com defasagem em relação às crianças que utilizam a linguagem verbal. O mesmo vale para a as crianças com perturbação sensorial-visual. Ou seja, a cognição não é um subproduto da linguagem verbal ou de sua estruturação como sistema que viabiliza as significações, já que mesmo na ausência do verbal o indivíduo é capaz de elaborar outro sistema de sinais como significantes diferenciados dos significados, mobilizando e estruturando para isto uma ou outra atividade sensório-motora orgânica. Pelo contrário, é a inteligência no seu conjunto que estruturará as formas de representação.

Por outro lado, a linguagem propicia a conceitualização da ação (sua significação) para além dos limites dos significantes sensórios-motores característicos da fase pré-semiótica. Isto porque permite uma significação anterior à ação com maior velocidade e extensão, superando as adaptações só relacionadas aos espaço e tempo em que ocorre a ação (adaptações, por exemplo, decorrente de uma narrativa que ocorreu em outro lugar) e, finalmente, representando o conjunto da ação de forma simultânea. Entretanto, antes e depois do nível sensório-motor, a inteligência continua - na perspectiva de Piaget - a se constituir na âncora da representação. Isto é, o domínio em si dos novos instrumentos de linguagem verbal não assegura patamares superiores de equilíbrio cognitivo, embora os esquemas cognitivos se façam presentes nos processos de aquisição da linguagem. Conforme Axt (1996), a linguagem é assim um conteúdo passível de análise interacional sujeito-objeto (no caso, a linguagem).

3 Valores, normas e cognição nas interações sociais

Com o desenvolvimento da função semiótica, as interações dos indivíduos com o ambiente sofrem um deslocamento importante do ponto de vista da complexidade dos processos de adaptação (assimilação/acomodação): Neste sentido, o processo de adaptação das estruturas cognitivas ao ambiente é, ao mesmo tempo, o de equilibração afetiva e moral. Não há, entretanto, um automatismo entre desenvolvimento da função semiótica e operações intraindividuais e cooperações interindividuais, embora estas duas formas de coordenação das ações sejam solidárias entre si. Pelo contrário, na psicogênese, apesar do desenvolvimento da função semiótica, há uma sobrevida dos níveis pré-operatórios e pré-cooperativos. Por decorrência do descentramento e do “egocentrismo” , por exemplo, é diversa a forma como as crianças de sete anos ou mais jogam “bolinhas de gude” em relação aos que se encontram no nível pré-operatório (2-7 anos). Enquanto que os primeiros jogam conforme as regras (com vencedores e perdedores), os segundos adotam somente parte das regras, aleatoriamente, de forma lúdica, num jogo (simbólico) sem vitoriosos. O mesmo indicam as experiências com linguagem verbal, nas quais as crianças no nível pré-operatório travam “monólogos” em ambiente coletivo. Isto é, não há troca, portanto não cooperação interindividual e nem operação individual.

Este raciocínio, baseado em suas conclusões sobre a psicogênese do conhecimento, é válido, segundo Piaget, para a vida social (conf. Estudos Sociológicos). As interações sociais, neste sentido, se desenvolvem em torno e a partir das relações entre três aspectos: as normas, a estrutura da vida social (expressa em regras: o direito e as normas que a compõem), como correlatas às operações cognitivas; os valores (afetivos e sociais); e os sinais. Isto é, toda a conduta traz consigo cada um destes aspectos. A problemática da vida social se coloca em mais dois planos correlacionados. Por um lado, decorrentes do fato de que em cada um dos aspectos citados, as interações podem ocorrer sob a forma de coação (heteronomia), autonomia ou anomia (ausência de regras). Por outro lado, associado ao plano anterior, a questão dos ritmos, regulações (nível pré-operatório) e agrupamentos (operatórios).

As relações entre estas várias categorias se configuram de várias formas nas interações sociais. Assim, por exemplo, a existência em si da norma não assegura que a mesma se constituia como agrupamentos operatórios no que se refere à vida social e, portanto, podem se encontrar num espaço aquém da moral. Piaget se refere às várias coações sociocêntricas (que correspondem no intraindividual ao egocêntrico) que impedem as trocas interindividuais nas interações devido à pressão de um valor específico inerente às normas (ideológico), frente aos quais os indivíduos são coagidos. O oposto também é válido: normas morais impostas (por exemplo, via coação educativa) sem espaço de interações para que o sujeito reviva, em sua experiência, o processo de operação e cooperação necessários à sua constituição autônoma. Estas várias formas de coações condicionam as interações aos níveis cognitivos pré-operatórios correlativo às regulações na vida social.

Entretanto, não só as coações são estruturadas por regulações. As trocas de valores (afetivos e sociais) realizadas em interações não-coativas porém baseadas no laissez-faire se realizam simplesmente baseadas em “avaliações intuitivas oscilando em torno de um equilíbrio sem atingi-lo, e só conhecendo uma conservação aproximativa” (Piaget, 1973, p. 60), já que os pressupostos de valorização-desvalorização das trocas são matizados por esquecimentos, lembranças casuais, traduções de estimações por associações e probabilísticas, de imprevisibilidade e ausência de antecipações, reversibilidade, conservação e reciprocidade. Tais regulações, no limite, fazem retornar a vida social aos ritmos, nos quais a característica moral é a anomia (ou interações em que a moral é a falta de regras), expressando atividades cognitivas egocêntricas ou sociocêntricas.

O conjunto da função semiótica (símbolos e sinais arbitrários) é uma mediação destas interações, com a qual o sujeito representa a ação de forma centrada (no ego ou em seu grupo social) ou descentrada, por intuições e percepções (estruturadas pelas regulações) ou através de operações e cooperações. Na medida em que interfere o conjunto da função semiótica, as interações ocorrem sob vários planos de significação articulados ou não entre si, conforme o nível cognitivo dos sujeitos envolvidos. Assim, a imagem mental, o simbolismo dos jogos, a memória, o sonho, etc., atuam nos limites da transição do que é atividade sensório-motora do sujeito em direção ao pré-operatório (regulações). Ao mesmo tempo, os sinais construídos socialmente se sobrepõem a estes instrumentos chamados por Piaget de simbólicos. Os sinais verbais, a escrita, os gestos da mímica afetiva e de estilo, as maneiras de vestir, enfim um conjunto de instrumentos especificamente sociais com os quais o sujeito significa as suas interações intraindividuais e interindividuais com outros e com objetos.

Mais uma vez. O que interessa a Piaget é ordem cognitiva desta significação que se expressará na vida das formas de estruturação individual e social de normas e valores. Esta forma de estruturação atingirá o nível das operações e cooperações na medida em que os sujeitos envolvidos nas interações superarem o egocentrismo e sociocentrismo que compõem a gênese de suas condutas. Assim:

As relações cooperativas, na esfera das interações sociais em torno de valores, em oposição às trocas com base na coação e/ou egocentrismo, implicam em três condições inerentes aos processos operatórios: Tais condições, para Piaget, não se realizam em interações baseadas em laissez-faire, na medida em que estas fracassam em decorrência do egocentrismo e/ou da coação. A cooperação e a operação requisitam, neste sentido, uma disciplina dos interlocutores que se situe entre a inércia cognitiva da anomia e a coação da heteronomia.

4 Esferas de interação na ação comunicativa mediada hipertextualmente (hipóteses sobre o trabalho cooperativo)

O primeiro plano de interação sujeito-sujeito mediada pelo ambiente hipertextual é o relativo às relações sujeito-objeto que se expressa no uso das ferramentas individuais e cooperativas de editoração hipertextual. Esta relação ocorre tanto no nível individual como coletivo. Esta interação se constitui numa ação e, portanto, requisita a inteligência do sujeito. Sua complexidade é diversa conforme o ambiente computacional seja centralizado ou distribuído (Ver a este respeito Behar e Costa, 1997, 1996, 1997). Os objetos de conhecimento (no caso, as ferramentas computacionais) são incorporados continuamente às estruturas operatórias concretas e formais do sujeito, as quais se modificam ascendentemente visando se acomodar às características específicas dos meios técnicos de produção computacionais. Este duplo processo (assimilação/acomodação) compõe o equilíbrio cognitivo das interações sujeito-objeto em patamares de complexidade sempre superior. Neste sentido, nossa interação com as ferramentas dependerá das estruturas operatórias adquiridas e das interações presentes. Desde saber digitar, conhecer ou não o Dos, o Windows, os movimentos com o mouse até saber-programar em html, utilizar os programas de animação e de criação de figuras e editoração musical, são esquemas operatórios anteriores ou posteriores ao processo de equilíbrio, que liberarão o sujeito para novas possibilidades comunicacionais. As interações do sujeito com a cultura inclusive tecnológica também interfere neste processo: são diferentes as interações do sujeito conforme estejam baseadas em esquemas de construção autônoma do conhecimento, em relações heterônomas (só faz o dizem que deve ser feito) ou mesmo anômicas (não há construção autônoma nem heterônomas).

Estas operações serão atualizadas nas interações interindividuais nos termos de uma cooperação. Há um nível de estruturas operacionais exigido a cada um dos sujeitos para que ele possa compartilhar das várias ações concretas que resultarão ou não em atividade intelectual cooperativa. A cooperação concreta em torno do uso de ferramentas computacionais (portanto, um cooperação em torno dos meios técnicos utilizados) se expressa numa variedade de parâmetros que definem a viabilidade do ambiente cooperativo baseado no hipertexto. No caso de nossa experiência, tratar-se-ia de definições tais como: formas de envio de textos (.doc, .txt, html), distribuição de temas, ferramentas utilizadas, etc. Esta cooperação é gêmea das mesmas operações que realizamos quando procuramos modelar um ambiente de interação interindividual utilizando a informática. Os trabalhos da Solange e da Fátima (Ensino à Distância) podem ser contextualizadas neste campo de definição do objeto a ser estruturado em termos operativos.

A relativa placidez que caracteriza o desenvolvimento do trabalho cooperativo no que se refere aos meios técnicos (equipamentos e ferramentas) tem a ver com o fato de que são operações alternadas e sincronizadas com ações concorrendo a fim comum já definido (Piaget, 1973, 106). Ou seja, o objeto - ambientes construtivistas - estava delimitado pelo conteúdo da disciplina, bem como algumas de suas normas e meios técnicos de comunicação (e-mail, o “mural”, ftp e a atividade de produzir um hipertexto).

Mais complexas são as cooperações intelectuais envolvidas em nossas interações.

A primeira questão que indicará a possibilidades da cooperação é: Quais são as posições dos sujeitos interlocutores frente aos valores (no caso, intelectuais) e normas (autonomia, heteronomia ou anomia) sociais, no plano macro ou microssocial? Para Piaget, sem a existência de uma escala de valores intelectuais comuns, expressos por símbolos comuns, não haverá equilíbrio nas trocas interindividuais. Nossa experiência não chegou a tanto. Apesar de autônoma, a experiência careceu de trocas intelectuais onde as várias proposições individuais fossem opostas entre si visando um equilíbrio conceitual e de relações entre os aspectos considerados relevantes. Neste sentido, construímos um ambiente regulado porém não necessariamente cooperativo em termos de atividades intelectuais. As cooperações que poderiam ser desenvolvidas abrangeriam dois movimentos:

Finalmente, a esfera referente às dimensões vinculadas à função semiótica. Na verdade, a função semiótica é imprescindível à interação sujeito-objeto que se desenvolve na atividade de conceituação das ferramentas computacionais, desde de níveis mais simples até mais complexos. Porém, a função semiótica não se esgota aí. Por seu intermédio, expressamos nossas escolhas de objetos e de proposições sobre eles. Considero que o hipertexto nos permitiria não só a exposição por cada de suas proposições, mas também - desde que os processos cooperativos fossem mais desenvolvidos - o estabelecimento de uma malha de links internos entrelançando-os numa totalidade lógica e formal.