"Fermentando Piaget"

 

INTRODUÇÃO

Na Antiguidade Classica, Grécia e Roma já possuiam escolas consideradas como sendo de alto nível onde eram formados especialistas em filosofia, retórica, direito e medicina. Discípulos se reuniam em torno de um mestre, que transmitia toda a sua bagagem de conhecimento. Com as invasões bárbaras no século V e X, estas escolas "superiores" foram canceladas.

Entre os séculos XI e XV (entre final da Idade Média e Reforma), a Igreja Católica unificou o ensino superior em um só órgão denominado "universidade", onde manter a unidade do conhecimento básico para todas as especialidades e proporcionar ao futuros especialistas uma formação inicial unitária e geral é um esforço característico desse tempo[LUC 95]. O ponto chave era a imposição de verdades. Ocorriam debates, mas estes era realizados sob a vigilância dos professores que garantia a ortodoxia das idéias e eventuais conclusões.

Com os movimentos da Renascença, da Reforma e da Comtra-Reforma (Século XVI), o conceito de universidade tornou-se inconsistente com a realidade. Existe a imposição de uma atitude defensiva, de guarda das verdades já constituídas, definidas e definitivas, estáticas e restritivas, no sentido de não acrescentar aos valores do passado as numerosas descobertas que eram feitas[LUC 95].

No Século XVIII surge, com os enciclopedistas, o movimento ilumista que questiona o tipo de saber estribado nas "summas medievais" [LUC 95].

Com o surgimento da industrialização (século XIX), a universidade enfoca as necessidades profissionais, estrutura-se em escolas superiores, isoladas pelos objetivos práticos. Nesta época surge a mentalidade voltada para a pesquisa.

Desde épocas muito antigas que acredita-se que o conhecimento seja algo "fluido", ou seja, pode passar de uma pessoa para outra através de palavras, gestos, ações. Já no século IV AC os filósofos gregos, que são até hoje a base de nosso conhecimento, reuniam-se nas "academias" e expunham a seus discípulos suas idéias sobre a vida, religião, ciência, etc. Havia até os sofistas, que faziam desta transferência de conhecimentos sua forma de ganhar a vida.

O que temos aqui é, de acordo com José Armando Valente, a promoção do "ensino" tal qual esta palavra é entendida em sua origem latina "insignare", significando a transmissão do conhecimento, de informação ou de esclarecimentos úteis ou indispensáveis à educação e à instrução.

Desde aquelas épocas remotas, a única grande alteração ocorrida neste "ensino" foi a invenção do tipógrafo de Gutemberg, por volta do século XV, que permitiu, posteriormente, a edição de livros em grande escala, alterando completamente o domínio sobre o conhecimento.

De lá até os dias de hoje outros quinhentos anos se passaram, porém o modelo ainda é basicamente o mesmo de então; ainda hoje os estudos das diversas áreas do saber são divididos em diferentes "faculdades", exatamente como na Idade Média, e o grande auxiliar do aluno para entender os "discursos" que um "magno" professor profere de cima de um pedestal para os cerca de 100 "tabula rasa" alunos ainda é o mesmo livro texto de Guttemberg, talvez um pouco melhorado, com algumas figuras e brincadeiras a mais.

Toda esta bagagem de milhares de ano foi "ensinada" à maioria dos atuais professores de hoje, e compõe o paradigma que os estrutura pedagogicamente, implicitamente ou não. Para todos nós, ensinar é, por um ato de pura mágica, fazer com que todo aquele vasto cabedal de conhecimentos que achamos que temos sobre o assunto de nossa especialidade, passe para o aluno, da mesma forma que o líquido de um vaso que esta a uma altura um pouco mais alta flui para aquele localizado em um patamar um pouco mais baixo, e com o qual ele se comunica. Para melhorar esta comunicação, o professor utiliza slides, vídeos ou transparências multicoloridas, e acredita estar cumprindo sua missão de transmitir conhecimento.

E de uma certa forma, até que o professor atinge seu objetivo, porém o que hoje se questiona é para que serve este conhecimento. Alfredo Veiga-Neto aponta que é fundamental distinguir-se entre conhecimento e saber. "O conhecimento é impessoal, infinito, voltado à utilidade, fragmentário e depende do experimento."O saber é pessoal, finito, ligado à vida, integrador e depende da experiência." E é justamente este o paradoxo da educação atual: o mundo em geral e o mercado profissional em particular buscam um homem que saiba lidar com a complexidade de nossa realidade, que seja criativo e tome iniciativas em busca de crescimento e de resolução de problemas, em suma, que saiba pensar e não repetir lições aprendidas, mas o "ensino" o leva a repetir velhas fórmulas, lhe apresenta os diversos conhecimentos de uma forma fragmentada que não parece fazer sentido em nenhum contexto global (apesar de o ter), pune-o pelo erro induzindo-o a não experimentar para não errar.

Rompendo este paradigma, surgiu na segunda metade deste século, a teoria de um biólogo suíço, Jean Piaget, que na busca de como se forma o conhecimento na mente dos homens criou a "Epistemologia Genética". Piaget contrariou tanto a teoria positivista de Platão quanto a racionalista de Aristóteles com seus conceitos interacionistas, nos quais os fatores genéticos possuem importância, mas esta é restrita a criação de possibilidades para o desenvolvimento da inteligência, uma vez que esta só se desenvolve através da interação com o meio, o qual modifica e é modificado por este, em sucessivas fases de desequilíbrio e equilibração.

A teoria de Piaget tenta explicar de uma maneira científica como se desenvolve a inteligência em seus diverso níveis, desde o que acontece com o bebe ao tentar sugar o leite do seio de sua mãe até a elaboração de exercícios mentais na resolução de algoritmos matemáticos por adolescentes, não sendo contudo, uma nova técnica pedagógica, razão muito freqüente de crítica por parte dos educadores que assim a gostariam de interpretá-la, reduzindo significativamente o seu conteúdo fundamental.

Duas razões contribuem para que a aplicação da epistemologia de Piaget no campo da educação seja ainda hoje tão polêmica: a primeira, já mencionada anteriormente, diz respeito a este não encontro de fórmulas prontas a serem usadas em sala de aula, bem a gosto de grande parte dos educadores atuais e a segunda, a meu ver mais importante, é esta quebra de paradigma que os conceitos de Piaget trazem, é a troca do repasse da informação para a busca da formação do aluno; é a nova ordem revolucionária que retira o poder e autoridade do mestre transformando-o de todo poderoso detentor do saber para um "educador-educando", segundo as palavras de Paulo Freire, status este adquirido ao longo de milhares de anos, como já vimos anteriormente.

Quase que paralelamente às teorias de Piaget, e de uma forma muito similar, o computador também veio para "desestruturar" o status quo vigente na educação de nossos dias. Enquanto que, de acordo com Pierre Levy, a escrita e a impressão já nos constituem, integrando de tal forma nosso inconsciente coletivo que jamais alguém ousaria apontá-las como estranhas aos atuais processos culturais, o computador ainda amedronta o educador convencional, que o taxa de bárbaro, de contrário à vida.

Da mesma forma que a utilização da Epistemologia Genética para a educação, o emprego do computador também rompe com diversos preconceitos, a iniciar pelas dimensões da interação que são acrescentadas. Para Lea Fagundes, a utilização do computador permite transgredir a dimensões de tempo e espaço, da forma que eram vistos e possível com as técnicas convencionais acrescentando todo um novo sentir a busca do conhecimento.

A utilização do computador, todavia, pode ser também muito bem realizada simplesmente ignorando-se todas estas novas dimensões que ele acrescenta (este tem sido seu uso mais freqüente atualmente) e empregando-o para prosseguir com o ensino da mesma forma que tem sido feito por séculos, apenas de uma forma mais bonita, mais lúdica, acrescido de sons e imagens que os livros convencionais não comportavam. Estes sistemas de utilização do computador, no entanto "não são considerados como uma boa forma de uso inteligente do computador na educação", nas palavras de José Armando Valente.

A grande maioria dos professores de ensino superior, principalmente os das "áreas técnicas" ou "hard" (entre os quais eu me incluo), nunca tiveram qualquer noção de pedagogia. O paradigma de ensino de acordo com as teorias aprioristas é o único que lhes é conhecido, pois é o praticado pela quase totalidade dos professores que os formaram.

Ao serem apresentados à Epistemologia Genética, sofrem um desequilíbrio muito grande, pois todas suas convicções até então, são colocadas, por água abaixo, e sua primeira reação, comumente, é uma regulação do tipo que Piaget classifica como a , em que o sujeito neutraliza ou afasta o que o perturba, através até da negação de sua existência. Porém de acordo com o pesquisador, esta conduta resulta num equilíbrio instável, e muitas vezes o sujeito parte em busca de mais informações que possam tirá-lo daquele estado de desequilíbrio.

O professor universitário "padrão" parte, então, em busca de mais subsídios para avaliar a nova teoria. Ao ler Piaget diretamente da fonte ele é novamente colocado em desequilíbrio. Os escritos do biólogo / sociólogo / psicólogo suíço além de utilizarem em sua composição o jargão próprio destas ciências (totalmente conhecidos por seus integrantes, porém um mistério para quem não o seja) faz uso de palavras que compõem o vocabulário da população leiga (tais como assimilação, acomodação) incorporando-lhes um novo significado totalmente particular e pertinente a suas teorias. Com isto, ao invés de diminuir, o desequilíbrio aumenta, e o professor só vê como saída refugiar-se nas velhas teorias, onde sente-se confortável e seguro.

Assim sendo, a proposta para este projeto é criar uma aplicação de multimidia onde o profissional leigo a esta área possa "construir" seu conhecimento sobre as teorias de Piaget. A idéia central seria utilizar a mesma metodologia que Piaget utilizou para formar sua teoria, isto é, a aplicação de provas a partir de situações da vida real.

O ponto de partida será um vídeo produzido para ensinar a leigos (alunos ou não) como fazer pão. A partir dos conceitos apresentados no vídeo será elaborada uma aplicação de multimídia, na qual os alunos serão desafiados a aprofundar seus conhecimentos sobre a manufatura do pão. Ao assistir o vídeo, o aluno poderá dominar toda a técnica necessária para a fabricação do pão, ou seja, receberá todo o conhecimento para tal, que o permitirá reproduzir a mesma receita quantas vezes desejar. No entanto, como preconiza Piaget, ele não terá galgado nenhum patamar de conhecimento, pois não lhe foram oferecidos os elementos que o permitirão construir novas idéias, ou seja, entender como e porque o pão é feito daquela forma e com aquelas matérias-primas, que o permitirão criar outros pães e outras receitas.

Utilizando-se de mapas sensitivos, criados a partir de cenas do vídeo, o aluno irá aprofundando seus conhecimentos sobre as diversas matérias-primas que compõem a massa do pão, poderá desenvolver sua idéia sobre a fermentação através de microrganismos e explorar os parâmetros de fabricação do pão, tais como temperatura de cozimento, teor de umidade, etc.

Ao final de sua "viagem" será confrontado com algumas provas piagetianas abordando seu conhecimento sobre relações de proporcionalidade,continuação da matéria, classificações, etc.

Paralelo a este ambiente educacional, será criado um outro, onde o professor irá se utilizar dos resultados alcançados nas provas piagetianas para confrontá-los com os obtidos por outros professores, bem como com os resultados de Piaget. . Com este "pensar e refletir sobre" o professor iria formando seus conceitos sobre assimilação, acomodação, equilibração majorante, etc., seguindo a visão de Piaget. Agregados a estas provas estarão linkadas outras referências para que o "aluno" possa inteirar-se de outros trabalhos referentes a teoria Piagetina.