ARTE E CONSTRUTIVISMO

Este texto testemunha um pensamento inicial sobre a possibilidade de relacionamento entre o construtivismo piagetiano e o movimento artístico construtivista. Existem pontos de encontro? Ou talvez interesse mais examinarmos qual a contribuição do construtivismo artístico, do início do século XX, no momento atual, analisado sob uma visão holística de integração e interação de vários sistemas que relacionam homemXmáquina?

O construtivismo foi um movimento determinante na história da cultura, cujo legado se faz sentir até hoje. Estamos vivenciando um momento histórico em que identicamos características semelhantes do movimento do início deste século. Basicamente o construtivismo refletia as alterações provocadas pela revolução industrial na vida cotidiana e artística. Hoje sentimos e falamos em construtivismo, assunto em voga na vida cultural, por quê? Talvez por que assistimos a transformação profunda da sociedade por efeito da interferência das novas tecnologias em nosso modus vivendi : é a revolução eletrônica que se opera sobre a era industrial nessa passagem para o terceiro milênio.

A seguir apresentamos um breve resumo do desenvolvimento histórico deste movimento onde se objetiva, também, o esclarecimento do modo de pensar num ambiente construtivista. Num segundo momento analisamos a influência do legado deste movimento na arte tecnológica atual, e, concluindo apresentamos o trabalho de um artista eletrônico como exemplo da preocupação conceitual do artista contemporâneo.

HISTÓRICO:

O construtivismo como um movimento artístico modernista ocorre no período entre 1913 e 1930, na Europa, principalmente na Rússia. Surge como uma decorrência do futurismo italiano e do cubismo francês. Adquire característas próprias perseguindo o ideal de abstração: despoja-se de qualquer alusão à natureza. Rompe radicalmente com a arte do passado (da representação do real) e propõe uma nova linguagem plástico-pictórica: "O mundo da não-representação" (Malevitch). Marca o início da preocupação da arte em criar objetos numa nova direção: a virtual, no sentido que a ênfase está mais no espaço vaziu que na massa, na ausência que na presença. O objeto artístico se liberta de sua base, do pedestal, do paralelismo à parede, trabalha mais com o espaço como elemento da linguagem plástica. Na pintura chega ao branco sobre o branco, ressaltando a presença matérica da tela, o objeto "tela" como mais importante que representações feitas sobre sua superfície. Nesta acepção está denotada a valorização do objeto industrial frente ao artesanal e a consequente dessacralização do objeto artístico.

A escultura é a grande beneficiada pela contribuição construtivista que modifica a noção tradicional de "esculpir", em que está embutida a idéia de desgastar um material, o chamado método subtrativo (por exemplo: escultura em pedra e madeira) ou de adicionar massa (escultura feita em argila, terracota, gesso, assim como também as técnicas de vazar bronze e massas em formas). O construtivismo apresenta a idéia de "construir" usando materiais naturais e sintéticos oferecidos pela industrialização. As obras se apresentam como objetos compostos de elementos geométricos em materiais diversos como metal, vidro, papelão, madeira, acrílico, plástico, dentre outros usados sós ou em combinação. O aparecimento de novos materiais implica na geração de novas técnicas e sistemas de construção, que , por sua vez determinam o surgimento de novas estruturas e aparências. Um cubo pode ser feito de várias substâncias que definem visualidades diferentes da mesma forma cúbica. A gênese da escultura construtivista é determinada pelo seu material. O destaque dado ao material coloca questões também de ordem psicológica, pois passa a existir o diálogo do artista com o material e suas características confrontadas pelas vivências do artista, sua memória emocional e sensória. Em outras palavras, quando um pintor trabalha sobre uma tela de maneira tradicional, esta constitui-se um suporte neutro à interferência do artista, no construtivismo inicia-se a possibilidade de suportes artísticos expressivos, que já carregam consigo significados para o próprio artista e também para o espectador. Por exemplo, ao invés de iniciar um trabalho sobre uma tela, o pintor pode preferir pintar sobre um fragmento de objeto industrial. Os cubistas George Braque e Pablo Picasso foram os primeiros a optarem pela revelação da verdadeira tridimensionalidade em detrimento da sua representação. A primeira obra dentro destes parâmetros foi a construção cooperativa dos dois artistas intitulada "Guitarra"(1912), feita de folhas de metal e arame. Preferiram agregar ao plano da tela elementos reais do que continuar "imitando" a realidade, representando-os através da pintura, o que passou a ser considerado sem sentido uma vez que a tecnologia tinha inventado e aprimorado métodos de reprodução mais fiéis como a fotografia. A tecnologia liberta a arte de seu compromisso social de representar.

Modifica-se totalmente o processo de criação. O artista está encantado com as facilidades advindas pelo avanço técnico e tecnológico. As obras de arte tornam-se verdadeiras homenagens à racionalidade científica da época e evidenciam a mais direta representação do impulso modernista no sentido de se adaptar à tecnologia da "era da máquina".

O construtivismo russo se desenvolve em construções tridimensionais como "Monumento à III Internacional"de Vladimir Tatlin, 1919, feito com ferro, vidro e madeira, em consonância com as idéias socialistas. Os artistas construtivistas russos entusiasmam-se por uma forma de arte despida de aura, mais próxima ao povo, ao alcance de todos. Usando materiais industrializados empregados no uso cotidiano, colocaram a arte a serviço do bem comunitário, atuando na direção utilitária do desenho industrial e arquitetura.

Após a revolução russa, o clima de experiência e invenção se quebra. O governo de Stalin não compreende que a revolução artística vinha de encontro com os pressupostos socialistas e persegue os construtivistas acusando-os de elitistas que inventaram uma forma de arte sem propósito e que no fundo o que queriam era não deixar que a arte clássica e tradicional chegasse até o proletariado. A forma de arte permitida era e é até hoje, a mímese da natureza. A mais expressiva vanguarda russa na arte foi assim dissipada e os artistas tiveram que optar em permanecer na Rússia e continuar nos moldes artísticos dos séculos anteriores, ou mudar para o oeste. Muitos foram lecionar na Bauhaus, escola alemã orientada para o design e para tecnologia, surgida como uma necessidade imposta pela expansão industrial, influenciaram toda Europa e Estados Unidos.

 

INFLUÊNCIAS CONSTRUTIVISTAS

As sementes construtivistas na arte seguem brotando em vários momentos férteis da história da arte como na arte pós-segunda guerra mundial quando o uso da combinação de materiais diferentes soldados passou a ser o método escultórico mais usado. O movimento neoconcreto, nascido no Brasil por volta dos anos 60, surge como uma reação ao concretismo racionalista de exploração de ilusões óticas, reaproxima-se da vanguarda russa na procura de um novo objeto para arte. O neoconcretismo brasileiro, derivado da escola de Ulm, na Alemanha já não lida em nenhum grau com o problema da representação, mas com o de emprestar uma transcendência à tela mesma como objeto material, segunda palavras de Ferreira Gullar (1985). Provavelmente seu maior legado foi de relacionar a arte com a ciência e a tecnologia. A abordagem racional inspirou não somente as esculturas cinéticas, o minimalismo, a pintura concreta ( que parece ser feita por máquina), abstração geométrica e a arte tecnológica.

LEGADO CONSTRUTIVISTA À ARTE TECNOLÓGICA

Podemos dizer que estamos vivendo num ambiente construtivista geral em ambos níveis: real e virtual. Uma vez que nossas mentes estão sendo remodeladas pelo avanço tecnológico, ampliando nossa capacidade de sentir e processar novas vivências e informações, reequipados com o auxílio prestimoso das máquinas reconstruímos nossa nova realidade.

Na arte observamos uma tendência para a interatividade, isto é, a obra não é um objeto acabado, sacralizado, posto na parede dentro de uma moldura. Na arte interativa a obra é virtual, imatérica, existe apenas no momento da experiência e vivência do espectador. Ele é que constrói a obra, é co-autor e interagente. O artista apenas cria uma proposta de interação com o espectador, como um jogo sensório e/ou mental, determinante de um diálogo transformador.

Esta arte do fim deste século se assemelha também do construtivismo por seu amor ao avanço científico e tecnológico, além da tendência ideológica à democratização. A arte vem de encontro ao seu público, rompendo com sistemas de poder como o "sistema das artes": composto por marchands, galerias, curadores, museus, etc. "Esta arte partilhada com as máquinas entra nas casas via satélites, telefones, oferecendo-se para ser recebida, modificada e devolvida (...). Comunidades virtuais on-line reúnem indivíduos por afinidade, em que a arte também afirma sua liberdade" como se expressa Diana Domingues(1997).

Enquanto que a arte tradicional privilegia a permanência da obra e procura fixar uma idéia sobre um suporte, a arte eletrônica trabalha com suporte virtual, a imaterialidade, a mutabilidade, a efemeridade, a conectividade, interatividade e colaboração. Na arte tradicional o espectador é colocado como diante de uma "janela" pela qual ele assume uma atitude contemplativa, na arte interativa o espectador se posiciona diante de uma "porta aberta" por onde ele pode passar e interagir, colaborando com o artista.

As novas tecnologias remodelam a sociedade como um processo irreversível. Só o artista pode enfrentar impunemente o efeito eletrônico porque é especialista em causar rupturas e transgressões. Trabalha com propostas descondicionantes. Aborda a máquina de maneira crítica diferente do usuário comum que se deixa levar pelos avanços tecnológicos com interesse imediatista ou deslumbramento cego. O artista se impõe o papel da análise conceitual dos fenômenos que ocorrem na sociedade, provocando uma tomada de consciência.

A seguir indicamos o trabalho do artista plástico Eduardo Kac para representar esta geração de artistas eletrônicos perfeitamente integrados na relação híbrida homemXmáquina.