1 Conhecimento e tomada de consciência

em atividades cooperativas utilizando telemática

No texto anterior (O Uso do Hipertexto em Atividades Cooperativas na Construção do Conhecimento - Atividade 1), afirmamos, com base em Piaget e outras interpretações (Behar e Costa, 1996, 1997; Axt, 1996) que utilizamos, que as interações do sujeito com o ambiente hipertextual ocorrem em duas esferas básicas: interações sujeito-objeto (sujeito-ferramentas) individuais; interações sujeito-sujeito mediadas por meios técnicos e linguagem, em torno de ações especificamente técnicas ou em de outros objetos (valores, por exemplo) que compõem a intencionalidade interindividual. Afirmamos ainda que estas interações entre sujeito-objeto e sujeito-sujeito podem ocorrer sob formas heterônomas, autônomas ou mesmo anômicas e que o ato de operar é também de co-operar.

Queremos agora acentuar a questão do conhecimento do sujeito sobre estas interações, utilizando o paradigma piagetiano para isto. Para Piaget, o conhecimento corresponde aos vários graus de tomada de consciência do sujeito sobre as interações, sendo o mais alto grau o da “consciência explícita, declarativa, enquanto o mais elementar seria o da “subcepção”(Axt, 1996). Portanto, o conhecimento é diretamente proporcional a capacidade do sujeito em representar em esquemas suas interações. Afinal, isto é coerente com o próprio método clínico, onde a verbalização das ações ocupa um lugar destacado nas investigações que sua equipe realizou. Isto não significa, como afirmamos, que a linguagem em si gera a cognição. É a função semiótica no seu conjunto que liberta o sujeito dos limites circunscritos de suas interações, permitindo representações que trascendem o imediato espacial e temporal.

Entretanto, esta tomada de consciência não surge como as relações entre o Lampadinha e o Professor Pardal. A passagem das coordenações inconscientes às conscientes exige, conforme Piaget, reconstruções tão trabalhosas como se fossem uma nova construção. Isto não significa que as interações em si já não se constituam num saber. Trata-se, quando não conceituada, num savoir faire, tão eficente quanto inconsciente. Assim, por exemplo, sabemos engatinhar antes mesmo de conceituar o conjunto de movimentos que compõem esta ação. Esta é a razão pela qual muitos conseguem interagir com as ferramentas computacionais, mas na hora de explicar como fazem...

Para Piaget (1978), tomamos consciência não só porque não nos adaptamos em determinadas interações, mas também porque definimos novos objetivos para antigos meios e/ou novos meios para antigos objetivos. Isto é, o que gera os níveis de conhecimento não é só a negatividade das interações (“por que não deu certo?”) mas também a positividade do “quem sabe eu faço assim?”, ou “faço assado?”.

A busca de novos meios, portanto, é já parte do processo de tomada de consciência, que segue uma lei geral segundo a qual o sujeito parte da periferia das interações para os seus centros. Com periferia Piaget se refere a dois elementos que compõem a ação de forma mais ou menos explícita para o sujeito: “a consciência do objetivo a alcançar (a intencionalidade) e o conhecimento de seu desfecho como fracasso ou êxito” (idem, p. 198). Ou seja, intencionalidade-sucesso-ou-fracasso é o ponto de partida. Assim, por exemplo, o fracasso ou sucesso em fazer uma home-page, em mandar um e-mail, em produzir um texto, em ser aprovado na disciplina, etc.

É do ponto anterior (chamado de periferia da ação) que o sujeito vai se dirigir, por um processo de diferenciação dos elementos presentes nas interações, para si e para o objeto. Ilustrando: diferenciar os vários movimentos feitos numa ferramenta de autoria e seus efeitos em termos semióticos; diferenciar os várias esferas de interação em trabalho cooperativo utilizando hipertexto; diferenciar várias ferramentas de informática e seus usos; diferenciar posicionamentos teóricos em torno do conceito construtivismo.

Esquematicamente, a tomada de consciência pode ser representada assim:

S<---<>--->O

C<----P---->C'

Ora, no caso das interações cooperativas utilizando hipertexto de que tratamos, as esferas são simplificadamente duas:

a) relações sujeito-ferramentas

S<---<>--->O

C<----P---->C'

b) relações sujeito-sujeito

S<---<>--->S

C<----P---->C'

O limite deste esquema é que representa isoladamente os dois momentos das interações sociais mediadas por hipertexto. Como, entretanto, toda e qualquer relação sujeito-objeto é contextualizada por uma determinada intenção do sujeito e que estas intenções são indissociáveis das interações sociais (como vimos no texto da Atividade 1), podemos estabelecer uma relação de inclusão lógico-formal entre as duas esferas de interações de tal forma que sujeito-sujeitoÌ sujeito-objeto? Por mais sedutora que seja este esquema de inclusão, a psico e sociogênese do conhecimento remete, pelo contrário, a uma mútua dependência das duas esferas de interações. As interações sujeito-objeto possibilitam determinadas operações e co-operações que são incorporadas - por vias diversas - nas interações sujeito-sujeito, e o inverso também é verdadeiro. Assim, por exemplo, o metodologia de pesquisas das ciências naturais se constituiu por um largo período no paradigma de cientificidade ao conjunto das ciências, inclusive sociais. Por outro lado, a evolução das ciências e das técnicas modernas são indissociáveis das interações sociais desenvolvidas nos marcos da sociedade mercantil (isto é, pós-feudal).

Ora, nas interações sociais, a problemática da consciência ganha uma complexidade maior decorrente do fato de que a intencionalidade dos interlocutores nem sempre é explícita (diríamos, pelo contrário, que é, na maioria das vezes, implícita). Se nas interações sujeito-objeto há uma certa transparência quanto a finalidades, o que favorece a tomada de consciência a partir da periferia, o mesmo não ocorre nas interacões interindividuais. Assim, a tomada de consciência nas interações inicia já em torno das próprias intencionalidades dos interlocutores, ou seja tomar consciência sobre o que cada um objetiva com a interação. Exemplo: no caso de nossa experiência coletiva, a intencionalidade já está relativamente definida com o conteúdo das atividades cooperativas. Porém, a intencionalidade não se esgota aí. Este sentido compartilhado compõe uma lógica de cooperação que se articula com as diferenças em termos de objetos, valores e conceitos que cada um desenvolve.

A tomada de consciência percorre caminhos já traçados pela ação sem conceituação, embora se diferencie deste savoir faire em estado bruto. Assim, por exemplo, estamos desenvolvendo um trabalho cooperativo como ação. A tomada de consciência sobre esta ação requer um esforço especial, um nova construção, que se sobrepõe às construções feitas. Qual é a trajetória desta reconstrução conceitual? É mesma, diz Piaget, da ação. Esta se desenvolve em torno de vários esquemas isolados entre si (no caso, esquemas sujeito-máquina e sujeito-sujeito), os quais são coordenados por assimilações de uns em relação aos outros. Por exemplo, assimilações técnicas procedurais de como encaminhar o trabalho cooperativo. Ao mesmo tempo, há um processo de conceituação deste trabalho (no nosso caso, privilegiado, na medida em que nossa função social, como doutorandos, é conceitualizar e explicar a realidade), conceituações individuais nos vários trabalhos feitos e interindividuais conforme as trocas em e-mail e mural, as quais são esquemas de assimilição mais ou menos isolados entre si, porém passíveis de serem coordenados numa totalidade singular, ou seja como um sistema de idéias coerentes. Por exemplo, a discussão sobre hierarquia envolvendo o França, a Evelise a Solange são trocas que indicam esta possibilidade de coordenação de ponto-de-vistas, apesar de não terem evoluído mais. Levando à risca a idéia de Piaget, considero este tipo de discussão de suma importância para o trabalho cooperativo, pois no seu interior são criadas (ou não) coordenações interindividuais no plano dos conceitos. Quando não ocorrem as coordenações, temos simplesmente regulações baseadas nas trocas (ver texto Atividade 1). Quando ocorrem, temos abstrações conceituais cooperativas.

Pois bem. As interações que desenvolvemos delegam, por assim dizer, a cada ferramenta computacional uma especificidade na aquisição de conhecimento (tomada de consciência) cooperativo. O texto individual colocado na forma de html se constitui muito mais em expressão das operações. A lista de discussão é o meio de trocas, de coordenações interindividuais. O processo de construção do conhecimento poderia resultar em textos onde as várias perspectivas apresentadas estivessem coordenadas entre si. Estas seriam as conclusões em termos de abstração. A dificuldade em compor as nossas conclusões das atividades cooperativas reside nas insuficiências destas coordenações de pontos de vista, capaz de dar conta tanto das interações sujeito-objeto como as interindividuais.

Entretanto, não só as listas viabilizam a cooperação. Há cooperação quando cada um de nós, ao ler o texto de outro, converge com suas perspectiva e as incorpora em seus esquemas de assimilação. Por exemplo, quando inicio o texto da atividade 1 reconhecendo a validade conceitual do texto de Fátima, do Julio e Marcia.

Para finalizar, é importante considerar duas reflexões sobre o hipertexto colocadas nas referências de nossa Atividade 2.

Terry Mayes, em seu artigo Hypermedia and Cognitive Tool, questiona que o argumento de que hipertexto possa auxiliar o desenvolvimento da cognição, na medida em que proporciona interatividade, baseadas também em excursões guiadas, índices, e testes. Este autor afirma que nem sempre o sujeito (estudante) escolhe as melhores informações para aprendizagem, e sequer a própria interatividade é um atributo inerente às ferramentas. O ato de folhear não gera conhecimento. Por outro lado, a complexidade do hipertexto pode sobrecarregar o estudante com informações sobre a própria navegação. Este autor sugere a utilização de uma outra ferramenta (o StrathTutor) que responda às lacunas do hipertexto tradicional. Sem menosprezar esta contribuição, consideramos que sua abordagem descuida do aspecto essencial (por que integrante da construção do conhecimento) que é o das relações sujeito-sujeito, ou seja as atividades de cooperação.

Já Reader & Nick (Computer-Based Tools To Support Learning From Hypertext: Concept Mapping Tools And Beyon) reduzem o hipertexto a um simples suporte para os materiais de aprendizagem, ou seja sem requisição de uma interatividade. O limite aqui é ententer as interações sujeito-texto como passivas. Se assim fosse, a civilização não teria chegado onde chegamos. De qualquer forma, a proposição destes autores de utilização dos mapas conceituais, que requerem construções de representações gráficas, é interessante. O mapa é utilizado como auxiliar na aprendizagem com o hipertexto. A idéia de conceituar corresponderia às formas de conceituação que caracteriza o conhecimento (inerente à tomada de consciência)? Intuitivamente, acredito que sim. Este estudo deveria ser feito. Outra questão: Como esta ferramenta poderia, por exemplo, ser utilizada em trabalho cooperativo? Ou seja, poderíamos construir mapas conceituais cooperativos?

2 Bibliografia Consultada