UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
DEPARTAMENTO DE ESTUDOS ESPECIALIZADOS

 Nível Sócio-Econômico dos Universitários:
Comparações entre UFRGS e PUC
MÁRCIA LÉIA MEIRELES DA SILVA – 4128/96-9


 TEMA: Nível Sócio-Econômico dos Universitários: Comparações entre UFRGS e PUC.

OBJETIVOS: Comparar o nível sócio-econômico entre os alunos da UFRGS e PUC, de vários cursos, a fim de verificar se há diferenças consideráveis entre a clientela da Universidade Privada e Pública e se esta atende às classes menos favorecidas .

JUSTIFICATIVA: O interesse por este assunto se deve à hipótese de que a Universidade Pública não vem atendendo a uma clientela de baixo nível sócio-econômico, mas a alunos que teriam condições financeiras de estudar em uma Universidade Particular.

Vários fatores podem estar influenciando neste possível resultado: em primeiro, é fato que os alunos de baixa renda têm mais dificuldades (variadas) em frequentar a Escola; apresentam maior número de repetência escolar por diversos motivos. Em segundo lugar, as pessoas de renda alta geralmente têm mais facilidade em seguir o percurso escolar normal e, devido à frequência em cursinhos pré-vestibulares, conseguem entrar nas Universidades mais concorridas, como é o caso da UFRGS no Rio Grande do Sul, que, além de ser gratuita, é também a instituição de ensino superior de maior prestígio no Estado.

Tudo isso pode não ser verdadeiro, o que justifica uma verificação mais apurada.

METODOLOGIA: Serão consultadas as estatísticas do nível sócio-econômico dos alunos ingressantes via vestibular, de diferentes cursos, em ambas as Universidades. Em seguida, serão comparados os resultados, fazendo-se uma análise descritiva.

INTRODUÇÃO

Para a realização desta pesquisa utilizou-se duas bibliografias básicas: um estudo feito pela UFRGS sobre o perfil sócio-econômico de seus alunos matriculados em 1994; e os resultados estatísticos brutos do perfil sócio-cultural dos alunos classificados no vestibular de 1994 da PUC.

O instrumento de coleta de dados do estudo da UFRGS foi um questionário confeccionado pela PROGRAD, que inclui idade, sexo, escola de 2º grau que o aluno cursou, freqüência a curso pré-vestibular, local de residência dos estudantes, nível de vida dos estudantes (se possui automóvel, computador, ar-condicionado, aparelho CD, etc.), viagens realizadas pelo Brasil e exterior, nível de instrução dos pais, residência dos pais, nível de vida e viagens pelo Brasil e exterior realizada pelos pais. Todos esses fatores foram também classificados por curso, a fim de verificar se há discrepâncias. Em um total de 17.425 estudantes matriculados no ano de 1994, 7.960 questionários foram respondidos, o que corresponde a 46% dos alunos ingressantes neste ano.

Para a obtenção dos dados da PUC, foi necessário recorrer à Divisão de Ingresso e Registro, devido a não haver nenhum estudo específico sobre o assunto. Apesar disso, pôde-se conseguir informações sócio-culturais dos alunos classificados no ano de 1994 que preencheram o questionário sócio-cultural do Manual do Candidato, referente ao material de inscrição do vestibular. Essas informaçoes dizem respeito à idade, sexo, estado civil, escola de 1º e 2º graus, turno em que cursou, ano de conclusão do 2º grau, cursinho pré-vestibular, quantas vezes prestou vestibular, se iniciou curso superior, nível de instrução dos pais, atividade remunerada do aluno, participação na vida econômica familiar, abandono de curso e aspirações do curso universitário. Do total de 28.908 alunos classificados no ano de 1994, 27.345 responderam ao questionário, o que corresponde a 95% dos alunos classificados neste ano.

Por não haver estatísticas do perfil sócio-cultural dos alunos matriculados no ano de 1994 na PUC, a comparação será feita considerando-se este fator, determinante de conclusões vagas ou até mesmo errôneas, pois estes mesmos alunos podem ter se classificado na UFRGS e matriculado-se nesta Universidade portanto. Apesar disso, é coerente pensar que ao menos uma porcentagem significante dos alunos classificados na PUC neste ano tenham se matriculado.

Devido a essas dificuldades, o objetivo desta modesta pesquisa não será o de tirar conclusões absolutas ou prepotentes, mas apenas comparar as diferenças e pontos em comum existentes no perfil sócio-econômico dos alunos que se matricularam em ambas Universidades no ano de 1994, e, caso seja possível, levantar algumas reflexões sobre a Educação e sua participação na produção de desigualdade sócio-econômica no Rio Grande do Sul.

DA UFRGS

 * DESCRIÇÃO DO PERFIL SÓCIO-ECONÔMICO DOS ALUNOS:

IDADE: 52% do total dos estudantes situam-se na faixa dos 18 aos 22 anos e a idade média é de 23 anos.

SEXO: 56,7% dos estudantes são do sexo masculino, contra 43,3% do sexo feminino.

TIPO DE ESCOLA DE 2º GRAU: 50% estudaram em Escola Pública e 50% em Particular.

FREQÜÊNCIA A CURSO PRÉ-VESTIBULAR: 73,1% cursaram e 26,9% não fizeram cursinho.

LOCAL DE RESIDÊNCIA: 51% moram com os pais; 16,4% em imóvel alugado; 16,3% em imóvel próprio; 6,2% em imóvel cedido; 4,7% com parentes; 2,3% em Casas do Estudante; 1,7% não responderam; e 0,7% moram em república ou pensionato.

VIAGENS PELO BRASIL E EXTERIOR NOS ÚLTIMOS 3 ANOS:
 
VIAGENS
BRASIL (%)
EXTERIOR (%)
NENHUMA
24,5
72,1
UMA
17,8
14,7
DUAS
17,6
4,9
TRÊS
49,1
3,3
MAIS
0,0
0,0
TOTAL
100,0
100,0
 

NÍVEL DE VIDA DOS ESTUDANTES:
 
ITENS
POSSUI (%) 
NÃO POSSUI (%)
AUTOMÓVEL
24,0
76,0
COMPUTADOR
18,7
81,3
AR-CONDICIONADO
20,5
79,5
APARELHO CD
32,0
68,0
FORNO MICROONDAS
22,4
77,6
FREEZER
34,7
65,3
MÁQUINA LAVAR LOUÇA
22,7
77,3
MÁQUINA LAVAR ROUPA
56,7
44,0
SECADORA ROUPA
37,9
62,1
VÍDEO-CASSETE
50,1
49,9
CARTÃO DE CRÉDITO
37,0
63,0
SEGURO SAÚDE
32,2
67,8
SEGURO DE VIDA
16,1
83,9
EMPREGADA DOMÉSTICA
13,2
86,8
TV A CORES
78,0
22,0
REFRIGERADOR
81,6
18,4
* DESCRIÇÃO DO PERFIL SÓCIO-ECONÔMICO DOS PAIS:

NÍVEL DE INSTRUÇÃO:
 
NÍVEL DE INSTRUÇÃO
PAI (%)
MÃE (%)
SEM INSTRUÇÃO
3,7
4,2
1º GRAU
31,5
37,4
2º GRAU
27,1
29,5
SUPERIOR
37,7
29,0
TOTAL
100,0
100,0
Sabendo que a porcentagem da população brasileira que possui nível superior é baixíssima, 37,7% e 29% representam um número muito alto em uma amostra representativa de 46% dos alunos.

CARACTERÍSTICAS DA RESIDÊNCIA:
 
QUANTIDADE
QUARTOS (%)
BANHEIROS (%)
UM
2,8
38,5
DOIS
25,5
34,9
TRÊS
49,5
16,8
QUATRO
17,0
7,1
CINCO
3,9
2,1
SEIS OU +
1,3
0,6
TOTAL
100,0
100,0
Nesta tabela, pode-se perceber que 49,5%, quase a metade dos pais, possui uma residência de três quartos, típica de classe média.

VIAGENS REALIZADOS PELO BRASIL E EXTERIOR NOS ÚLTIMOS 3 ANOS:
 
VIAGENS
BRASIL (%)
EXTERIOR (%)
NENHUMA
24,5
77,1
UMA
17,8
14,7
DUAS
17,7
4,9
TRÊS OU +
40,0
3,3
TOTAL
100,0
100,0
Aqui fica claro mais uma vez que quase a metade dos pais dos alunos (40%) se situam na classe média, ou seja, são aqueles que não têm muitas condições financeiras de viajar para o exterior, mas conseguem realizar viagens pelo Brasil.

NÍVEL DE VIDA:
 
ITENS
POSSUI (%) 
NÃO POSSUI (%)
AUTOMÓVEL
70,5
29,5
COMPUTADOR
18,4
81,6
AR-CONDICIONADO
33,4
66,6
APARELHO CD
33,6
66,4
FORNO MICROONDAS
33,0
67,0
FREEZER
63,2
36,8
MÁQUINA LAVAR LOUÇA
37,2
62,8
MÁQUINA LAVAR ROUPA
85,0
15,0
SECADORA ROUPA
55,2
44,8
VÍDEO-CASSETE
67,0
33,0
CARTÃO DE CRÉDITO
50,8
49,2
SEGURO DE VIDA
42,0
58,0
EMPREGADA DOMÉSTICA
22,5
77,5
FAXINEIRA
30,9
69,1
TV A CORES
95,2
4,8
REFRIGERADOR
98,4
1,6
CASA NA CIDADE
22,8
77,2
APARTAMENTO NA CIDADE
22,2
77,8
CASA NA PRAIA
26,1
73,9
APARTAMENTO NA PRAIA
6,6
93,4
CASA NA SERRA
2,9
97,1
APARTAMENTO NA SERRA
0,9
99,1
CHÁCARA, SÍTIO
13,6
86,4
TERRENO
34,5
65,5
FAZENDA
4,7
95,3
Nesta tabela pode-se perceber que mais da metade dos pais possuem automóvel (70,5%) enquanto que apenas 26,1% têm casa na praia, o que significa que a maioria detêm de bens de utilidade mais comum e poucos podem desfrutar de bens tidos como supérfluos.

 

* APRESENTAÇÃO DOS DADOS POR CURSO:

TIPO DE ESCOLA DE 2º GRAU:
 
CURSOS
ESCOLA PÚBLICA (%)
ESCOLA PARTICULAR (%)
TOTAL
ADMINISTRAÇÃO
38,9
61,1
337
AGRONOMIA
47,8
52,2
251
ARQUITETURA
37,7
62,3
284
ARTES
46,4
53,6
97
BIOCIÊNCIAS
52,2
47,8
157
COMPUTAÇÃO
40,4
59,6
371
COMUNICAÇÃO
43,8
56,2
185
CONTÁBEIS
64,2
35,8
307
DIREITO
47,4
52,6
247
ECONOMIA
50,4
49,6
121
EDU. FÍSICA
54,6
45,4
434
EDUCAÇÃO
56,7
43,3
416
ENFERMAGEM
61,7
38,3
248
ENGENHARIAS
45,8
54,2
1053
FARMÁCIA
41,4
58,6
297
FÍSICA
54,3
45,7
315
GEOCIÊNCIAS
61,9
38,1
197
IFCH
59,0
41,0
383
LETRAS
60,2
39,8
354
MATEMÁTICA
63,8
36,2
312
MEDICINA
30,6
69,4
245
ODONTOLOGIA
40,0
60,0
195
QUÍMICA
61,0
39,0
182
VETERINÁRIA
41,8
58,2
316
TOTAL
49,9
50,1
7304
De acordo com esses dados, fica evidente que um pouco mais da metade dos alunos da UFRGS cursaram o 2º grau em escolas particulares, o que hoje significa maior probabilidade de sucesso no vestibular em vista do descaso em que se encontram as Escolas Públicas (insuficiência de recursos e baixa remuneração do corpo docente).

FREQÜÊNCIA A CURSO PRÉ-VESTIBULAR:
 
CURSOS
SIM (%)
NÃO (%)
TOTAL
ADMINISTRAÇÃO
74,9
25,1
339
AGRONOMIA
72,5
27,5
251
ARQUITETURA
83,8
16,2
284
ARTES
70,4
29,6
98
BIOCIÊNCIAS
81,5
18,5
157
COMPUTAÇÃO
80,8
19,2
370
COMUNICAÇÃO
83,2
16,8
185
CONTÁBEIS
72,5
27,5
305
DIREITO
77,2
22,8
246
ECONOMIA
66,9
33,1
121
EDUC. FÍSICA
67,4
32,6
435
EDUCAÇÃO
62,5
37,5
408
ENFERMAGEM
82,3
17,7
248
ENGENHARIAS
76,2
23,8
1053
FARMÁCIA
85,6
14,4
298
FÍSICA
54,0
46,0
315
GEOCIÊNCIAS
50,5
49,5
198
IFCH
63.0
37,0
384
LETRAS
59,4
40,6
352
MATEMÁTICA
62,2
37,8
312
MEDICINA
91,0
9,0
244
ODONTOLOGIA
94,4
5,6
195
QUÍMICA
62,6
37,4
182
VETERINÁRIA
88,0
12,0
317
TOTAL
73,1
26,9
7297
De acordo com esta tabela, torna-se mais evidente que os alunos que conseguem ingressar em uma Universidade concorrida como a UFRGS, seja para qualquer curso, mas principalmente para os de maior prestígio social (Medicina, Odontologia, Veterinária, Direito e Engenharias), precisam cursar o pré-vestibular. Pode significar também que, mesmo as Escolas Particulares, ainda não são suficientes para a aprovação do aluno no vestibular.

FONTE: PROGRAD (1994)

* TOTAL DE ESTUDANTES MATRICULADOS: 17.425

* TOTAL DE QUESTIONÁRIOS RESPONDIDOS: 7.960 (46%)

DA PUC

 * PERFIL SÓCIO-CULTURAL DOS CANDIDATOS CLASSIFICADOS:

IDADE: 68,32% dos classificados têm até 19 anos; 25,87% de 20 a 29 anos; 4,51% de 30 a 39 anos; e 1,30% mais de 39 anos.

SEXO: 50,40% dos classificados são do sexo feminino, contra 49,60 do masculino.

ESTADO CIVIL: 92,85% são solteiros; 5,56% casados; 0,51% divorciados; 0,40% desquitados; 0,11% viúvos; e 0,57% não se encontram em nenhuma destas classes.

TIPO DE ESCOLA EM QUE CURSOU O 1º E 2º GRAUS:
 
TIPO DE ESCOLA
1º GRAU (%)
2º GRAU (%)
PÚBLICA
24,25
27,92
PARTICULAR
50,96
56,15
MAIORIA EM PÚBLICA
10,89
4,9
MAIORIA EM PARTICULAR
13,32
5,81
ESCOLAS COMUNITÁRIAS
0,08
0,0
SUPLETIVO OU MADUREZA
0,50
5,22
TOTAL
100,0
100,0
Assim como na UFRGS, um pouco mais da metade dos alunos classificados na PUC também cursaram o 2º grau em Escola Particular.

TURNO EM QUE CURSOU: 80,75% todo diurno; 7,96% todo noturno; 7,62% maioria no diurno; 3,21% maioria no noturno e 0,46 no supletivo ou madureza.

CURSINHO PRÉ-VESTIBULAR:
CURSINHO
(%)
NÃO
24,18
SIM, POR MENOS DE 1 SEMESTRE
18,12
SIM, POR 1 SEMESTRE
26,64
SIM, POR 1 ANO
19,38
SIM, POR MAIS DE 1 ANO
11,68
TOTAL
100,0
Aqui, tal como na UFRGS, mais da metade dos alunos classificados na PUC fizeram, por algum período, cursinho pré-vestibular, demonstrando assim que, mesmo em uma Universidade menos concorrida, a classificação depende do investimento econômico que o vestibulando pode conseguir, devido a tais cursinhos terem um custo considerado alto para as pessoas de baixa renda.

ATIVIDADE REMUNERADA: 67,51% dos classificados não trabalham e recebem ajuda financeira; 16,66% trabalham, mas recebem ajuda; 7,42% trabalham e não recebem ajuda; 5,87% trabalham e contribuem parcialmente para a família; e 2,54% trabalham e são responsáveis pelo sustento da família.

ASPIRAÇÕES DO CURSO UNIVERSITÁRIO: 66,81% entram para a Universidade a fim de adquirir uma formação profissional; 10,62% para melhorar o nível de instrução; 6,44% para adquirir cultura geral; 5,90% para melhorar a atividade desempenhada; 4,48% para obterem melhores salários; 3,88% para conhecer melhor o mundo que vive; e 1,87% para formação teórica.

 * NÍVEL DE INSTRUÇÃO DOS PAIS DOS CLASSIFICADOS:

NÍVEL DE INSTRUÇÃO
PAI (%)
MÃE(%)
ANALFABETO
0,36
0,36
LÊ E ESCREVE, MAS NÃO ESTEVE NA ESCOLA
0,41
0,48
PRIMÁRIO INCOMPLETO
7,45
6,86
PRIMÁRIO COMPLETO
5,95
6,01
GINÁSIO INCOMPLETO OU EQUIVALENTE
3,15
3,79
GINÁSIO COMPLETO OU EQUIVALENTE
3,72
5,60
CIENTÍFICO INCOMPLETO OU EQUIVALENTE
4,14
5,01
CIENTÍFICO COMPLETO OU EQUIVALENTE
15,08
20,30
SUPERIOR INCOMPLETO
9,79
8,84
SUPERIOR COMPLETO
45,15
38,86
PÓS-GRADUAÇÃO
2,42
2,10
NÃO SOUBE INFORMAR
2,38
1,79
TOTAL
100,0
100,0
Considerando que a porcentagem da população que possui nível superior é baixíssima, o número de pais com curso superior é muito elevado na PUC (assim como na UFRGS), quase a metade dos classificados (45,15%). Isso significa uma repetição ou reprodução dos valores sociais e das oportunidades, pois os filhos de pais sem instrução é quase insignificante.

* FONTE: DIVISÃO DE INGRESSO E REGISTRO DA PUC

* TOTAL DE ALUNOS CLASSIFICADOS (em 1994): 28.908

* TOTAL DE QUESTIONÁRIOS PREENCHIDOS: 27.345 (95%)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

  Tendo em vista os objetivos desta pesquisa bibliográfica, que eram o de comparar o perfil sócio-econômico dos alunos da UFRGS e PUC, refletindo sobre a capacidade da Universidade Pública em atender à clientela de renda baixa, as considerações finais que podem ser levantadas referem-se principalmente ao que as duas Universidades têm em comum, devido às diferenças deste perfil serem tão pequenas.

Em relação à UFRGS, um pouco mais da metade dos alunos matriculados que preencheram o questionário do PROGRAD vieram de Escolas Particulares, sendo que muito mais da metade (73,1%) fizeram cursinho pré-vestibular. Quanto ao nível de instrução dos pais destes alunos, 37,7% dos pais e 29% das mães possuem curso superior, contra 3,7% e 4,2% que não possuem instrução alguma. Prestando atenção às estatísticas da freqüência a cursinho por curso, percebe-se que os de maior prestígio social estão praticamente condicionados a eles, como é o caso da Medicina, Farmácia, Odontologia, Engenharias e outros.

Quanto à PUC, esses dados se repetem em sua significância. Mais da metade dos alunos classificados estudaram em Escola Particular a vida inteira e mais de 50% frequentaram cursinho pré-vestibular em algum período. Em relação ao nível de instrução dos pais, quase a metade (45,15% dos pais e 38,86% das mães) possui curso superior.

De acordo com essas estatísticas, é justificável se pensar que as Universidades, tanto Públicas quanto Particulares, são representativas da situação social e econômica do Estado, e em geral do país. Assim como em todos os setores da sociedade (econômico, político, artístico, profissional, empresarial, turístico, etc.) a divisão por classe econômica, sexo, raça, nacionalidade, ideologias políticas sempre aparecem diretamente ou superficialmente. Não poderia ser diferente com a Escola, onde a existência da "peneira desqualificadora" é manejada com muita sutileza, eliminando por graus de dificuldade, como por exemplo aquele que não tem dinheiro para pagar o transporte escolar, um cursinho pré-vestibular - já que apenas o ensino fundamental é obrigatório e portanto é pelo qual o governo se responsabiliza.

A respeito dos cursinhos pré-vestibulares, estes parecem denunciar o imenso "buraco" deixado pela Educação que temos hoje. Eles não existiriam se, depois de passados 12 anos de uma vida, o aluno tivesse aprendido o suficiente para conseguir dominar os conteúdos universitários. Ao contrário disto, a impressão que se tem é a de que os alunos se acostumaram a passar a "vida de estudante" sentados, adormecidos, ausentes, diante das vozes ensurdecedoras dos professores, que gritam muito para reclamar seus salários e esquecem de gritar por uma Educação melhor planejada, que não seja apenas "educação" mas uma ponte para as possibilidades de conhecimento e saber. Depois de praticamente 12 anos de surdez e adormecimento, os alunos têm a esperença de que, "acordando" para um ano de cursinho, conseguirão recuperar todo o tempo desperdiçado. Mas é uma esperança que acaba assim que se ingressa na Universidade, pois a "peneira" é ainda maior e poucos terminam seus cursos conseguindo se livrar do "adormecimento" imposto pela "educação", construindo alguma autonomia, uma autoria criativa do conhecimento.

Não é pretensão aqui culpabilizar a Escola ou os professores, nem mesmo o governo pelo descaso da Educação, pois os fatores que influenciam na produção de ignorância e desigualdade social são variados e não podem ser estudados a nível de causa- efeito, mas em uma dialética onde sociedade e Escola se retroalimentam em um constante movimento.

O que mais se pode evidenciar neste estudo é a repetição das oportunidades. Os pais que receberam algum investimento no setor da Educação, e portanto conseguiram adquirir nível de instrução superior ou médio, geralmente são os mesmos que investirão em seus filhos, possibilitando assim o ingresso destes em Universidades tanto Particulares quanto Públicas. Estes pais representam a maioria em ambas Universidades investigadas.

De acordo com isso, não é possível concluir que a UFRGS deixa de atender a classes de renda baixa, mas que a maioria dos alunos têm um perfil sócio-econômico que lhes garante uma atividade econômica que torna possível o mínimo de investimento em Educação, o que para muitas pessoas de renda mínima é inviável.

Em comparação com a PUC, verificou-se poucas diferenças. Apenas que um número maior de alunos estudou a vida inteira em Escolas Particulares e que um número maior de pais possui nível superior. Como não se tem a certeza de que esses alunos que foram classificados na PUC não foram classificados na UFRGS, é possível que alguns destes representem o próprio estudo da UFRGS.

Por isso, esse estudo é bastante limitado para conclusões maiores. No entanto, serviu como um incentivo para pesquisas mais elaboradas, relacionadas à produção e retroalimentação de ignorância e desigualdade sócio-econômica nas Escolas.

 
BIBLIOGRAFIA

  DIVISÃO DE INGRESSO E REGISTRO DA PUC (1994) Informações Sócio-Culturais dos Candidatos ao Vestibular de 94/2 a 98/2, Porto Alegre.

RIEDL, M. (1994) PROGRAD. Avaliação da UFRGS: Perfil Sócio-Econômico dos Estudantes. Revista Fascículos 7.